Apesar da ampla condenação global de Moscou por sua guerra contra a Ucrânia, o mercado de turismo emissivo da Rússia está demonstrando uma resiliência surpreendente — e até mesmo crescimento — destacando o papel complexo do turismo na geopolítica, na economia e nas conexões humanas.
Novos dados mostram que os russos gastaram quase US$ 49.7 bilhões em viagens internacionais em 2025, próximo de um recorde histórico, já que um rublo mais forte e a expansão das rotas aéreas impulsionaram um aumento nas viagens ao exterior.
Para os destinos dispostos a recebê-los, os viajantes russos continuam sendo um importante mercado emissor — mesmo com o conflito ainda remodelando a aviação, a diplomacia e os fluxos de viagens em todo o mundo.
Um mercado que se recusa a colapsar
Previa-se que o setor de viagens da Rússia sofreria uma contração devido às sanções, ao espaço aéreo restrito e às dificuldades financeiras. Em vez disso, o turismo emissivo se recuperou de forma constante.
De acordo com dados do Banco Central e do serviço de fronteiras:
- Os russos fizeram 31.5 milhões de viagens internacionais em 2025, um aumento de 8% ano a ano.
- As viagens turísticas internacionais aumentaram. 15.6% para 13.4 milhões.
- Entre os destinos mais populares estavam a Turquia, os Emirados Árabes Unidos, o Egito, a China e a Tailândia.
Analistas do setor afirmam que diversos fatores explicam essa resiliência:
- Um rublo mais forte aumentou o poder de compra no exterior.
- Corredores de voo alternativos via Oriente Médio e Ásia ajudaram a contornar as restrições do espaço aéreo europeu.
- O aumento dos preços internos tornou as viagens ao exterior comparativamente mais atraentes.
Mesmo antes de 2025, o turismo emissivo já havia começado a se recuperar, com as viagens internacionais de russos aumentando significativamente ano após ano, após as baixas registradas durante a pandemia.
O resultado é um mercado turístico que se adapta — e não desaparece — sob pressão geopolítica.
Nova Geografia das Viagens na Rússia
Com a maior parte da Europa de difícil acesso, tanto política quanto logisticamente, o turismo russo para o exterior deslocou-se para o leste e para o sul.
Destinos populares como Turquia, Emirados Árabes Unidos, Egito, China, Vietnã e Tailândia dominam o mercado, representando a maior parte da demanda. Os shoppings de luxo de Dubai, os resorts de praia tailandeses e os hotéis do Mar Vermelho egípcio tornaram-se pontos de encontro onde a geopolítica fica em segundo plano — pelo menos temporariamente.
Hotéis em Phuket ou Dubai agora costumam hospedar uma mistura de viajantes da Rússia, Ucrânia e Europa Ocidental. Embora a guerra continue a criar profundas divisões políticas, profissionais do turismo relatam que os hóspedes frequentemente interagem normalmente — compartilhando excursões, espaços gastronômicos e experiências.
Em muitos resorts, as conversas sobre política são evitadas, substituídas pela linguagem universal das férias: famílias na praia, vida noturna ou retiros de bem-estar.
O turismo como um motor inesperado da paz.
A coexistência de viajantes russos e ucranianos em destinos neutros como a Tailândia ou os Emirados Árabes Unidos cria um paradoxo: enquanto uma guerra mortal continua em casa, indivíduos de ambas as nações frequentemente compartilham os mesmos espaços no exterior.
Operadores turísticos afirmam que esses encontros podem ser surpreendentemente pacíficos.
- Excursões bilíngues no Sudeste Asiático estão atraindo cada vez mais participantes de ambos os países.
- Voos compartilhados via centros como Dubai ou Istambul unem viajantes apesar das divisões políticas.
Pesquisadores da área do turismo argumentam que essas interações — o contato informal entre pessoas — podem suavizar as percepções moldadas pela propaganda e pelas narrativas de guerra.
Para muitos viajantes, as férias no estrangeiro representam uma rara fuga das notícias constantes sobre conflitos e destruição.
O Dilema Ético para os Destinos
Receber turistas russos não está isento de controvérsias.
Muitos governos continuam a condenar a invasão da Ucrânia por Moscou, e alguns destinos enfrentam pressão política em relação às políticas de vistos ou ao acesso financeiro. A guerra também causou transtornos nas viagens, incluindo atrasos em voos devido a ataques com drones ou riscos à segurança. Ao mesmo tempo, as economias do turismo dependem dos gastos dos visitantes.
Os países do Oriente Médio e da Ásia adotaram, em grande parte, abordagens pragmáticas:
- Manter a neutralidade, priorizando ao mesmo tempo as receitas do turismo.
- Ajustar os sistemas de pagamento e os procedimentos de visto para acomodar os viajantes afetados pelas sanções.
Para destinos em recuperação da pandemia, os turistas russos frequentemente representam visitantes com alto poder aquisitivo e que permanecem por longos períodos — uma realidade econômica que pode superar as sensibilidades políticas.
Por que os russos continuam viajando para o exterior?
Diversos fatores estruturais estão impulsionando o crescimento das viagens internacionais:
- Comparações de custos
O aumento dos preços e os desafios de infraestrutura no país tornam as viagens ao exterior competitivas em termos de preço. - Nova Conectividade
A expansão das rotas de trânsito pela China e por centros do Oriente Médio restabeleceu o acesso a destinos globais. - Fuga Psicológica
Viajar oferece um refúgio temporário do estresse doméstico, da incerteza e da tensão relacionada à guerra.
Essa mudança reflete uma tendência global mais ampla: os viajantes buscam cada vez mais destinos que permaneçam abertos, com facilidade de obtenção de visto e politicamente neutros.
Uma indústria do turismo a lidar com as realidades da guerra
Embora o turismo emissivo esteja em plena expansão, o panorama geral permanece complexo.
Os gastos da Rússia no exterior ampliaram o déficit do país em serviços de turismo e contribuíram para a redução do superávit em conta corrente. Enquanto isso, a guerra em curso continua a dominar os noticiários globais, influenciando rotas aéreas, custos de seguros e a percepção de segurança.
Alguns destinos permanecem cautelosos, enquanto outros veem o turismo como uma ponte, e não como uma barreira — uma forma de manter o diálogo entre as sociedades, mesmo quando os governos entram em conflito.
O turismo pode ajudar a construir a paz?
A coexistência de viajantes russos e ucranianos no exterior levanta uma questão premente para a comunidade turística global: as viagens podem ajudar a manter as conexões humanas em tempos de conflito?
O turismo por si só não pode acabar com uma guerra. No entanto, pode proporcionar algo raro na geopolítica: espaços onde pessoas comuns se encontram sem ideologia, onde as conversas substituem as manchetes e onde as experiências compartilhadas lembram os viajantes de sua humanidade comum.
Em resorts de praia em Phuket ou hotéis de luxo em Dubai, a realidade do turismo atual reflete um mundo dividido e interconectado: um lembrete de que, mesmo em tempos de conflito, as viagens continuam — e, às vezes, silenciosamente, constroem pontes.




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