NOVA ORLEANS – Trinta e uma famílias que perderam entes queridos em dois acidentes fatais envolvendo aeronaves Boeing 737 MAX 8 comparecerão perante o Tribunal de Apelações do Quinto Circuito dos EUA na quinta-feira, 5 de fevereiro, às 11h30 (horário padrão central), para instar um painel de três juízes a retomar o processo criminal contra a empresa responsável pela aeronave. Boeing que foi rejeitada por um tribunal de instância inferior.
As famílias estão contestando uma decisão recente do juiz distrital dos EUA. Reed O'Connor, que aprovou o pedido do Departamento de Justiça para arquivar uma acusação de conspiração criminosa de longa data contra o fabricante de aeronaves. Embora o juiz O'Connor tenha descrito as objeções das famílias como "convincentes", ele concluiu em novembro que a legislação vigente não lhe deixava outra opção senão aceitar a posição do governo.
O cerne do recurso reside na questão de saber se o Departamento de Justiça dos EUA violou a lei federal. Lei dos Direitos das Vítimas de Crimes (CVRA) Ao não consultar de forma significativa as famílias antes de concordar em não processar a Boeing pelo que foi descrito como a fraude corporativa mais mortal da história dos EUA.
Alegações de má conduta do Departamento de Justiça
Representar as famílias é Paulo CassellCassell, professora da Faculdade de Direito SJ Quinney da Universidade de Utah e especialista reconhecida nacionalmente em direitos das vítimas, escreveu um extenso recurso argumentando que os procuradores federais violaram repetidamente a Lei de Direitos das Vítimas de Crimes Civis (CVRA) ao negociar acordos importantes com a Boeing a portas fechadas.
Cassell está pedindo ao Quinto Circuito que anule a ordem de arquivamento do processo emitida pela Juíza O'Connor e invalide o acordo recentemente negociado. acordo de não persecução penal (NPA) e quanto mais cedo acordo de acusação diferida (DPA)e restaurar o processo criminal para que possa prosseguir para julgamento.
Segundo o processo, os promotores não só deixaram de "consultar razoavelmente" as famílias, como exige a lei, mas também ocultaram termos essenciais dos acordos que protegiam a Boeing e sua antiga direção da responsabilização por 346 mortes.
“A abordagem do Departamento de Justiça privou as vítimas de seus direitos legais e negou ao público uma prestação de contas transparente da conduta criminosa da Boeing”, argumenta Cassell.
Contexto: Dois acidentes, 346 vidas perdidas
A batalha judicial decorre de dois desastres quase idênticos envolvendo o Boeing 737 MAX 8.
O primeiro acidente ocorreu em 29 de outubro de 2018, quando o voo 610 da Lion Air caiu no Mar de Java logo após decolar de Jacarta, Indonésia, matando todos os 189 passageiros e tripulantes a bordo. Menos de cinco meses depois, em 10 de março de 2019, o voo 302 da Ethiopian Airlines caiu logo após decolar de Addis Abeba, matando todas as 157 pessoas a bordo.
Investigações posteriores revelaram que ambas as aeronaves estavam equipadas com um novo sistema automatizado antiestolagem conhecido como MCAS (Sistema de Aumento das Características de Manobra). O sistema repetidamente forçava o nariz da aeronave para baixo com base em dados defeituosos dos sensores. Crucialmente, os pilotos nunca foram adequadamente informados sobre o MCAS, nem treinados sobre como neutralizá-lo.
Acusações Criminais e Suspensão Condicional do Processo
Em janeiro de 2021, o Departamento de Justiça acusou a Boeing de conspiração para fraudar a Administração Federal de Aviação (FAA) ao enganar os reguladores durante o processo de certificação do 737 MAX. A Boeing admitiu a fraude como parte de um acordo de suspensão condicional do processo, evitando o julgamento em troca de multas e promessas de melhorar as práticas de conformidade e segurança.
Nesse caso, um tribunal federal reconheceu formalmente as famílias das vítimas do acidente como vítimas de crimes, nos termos da Lei de Direitos das Vítimas de Crimes (CVRA).
No entanto, a situação mudou novamente em maio de 2024, após o rompimento, em pleno ar, de um plugue de porta mal fixado em um Alaska Airlines Aeronave 737 MAX. Após esse incidente, o Departamento de Justiça concluiu que a Boeing violou os termos do Acordo de Não Processamento (DPA) ao não implementar reformas adequadas de conformidade corporativa e segurança.
Acordo de confissão rejeitado e novo recurso.
Em julho de 2024, os promotores chegaram a um novo acordo segundo o qual a Boeing se declararia culpada. As famílias se opuseram, argumentando que o acordo era insuficientemente punitivo e não garantia uma supervisão significativa das práticas de fabricação e segurança da Boeing. Em dezembro de 2024, a juíza O'Connor rejeitou o acordo de confissão de culpa.
Meses depois, porém, o Departamento de Justiça mudou de ideia, optando por um acordo de não persecução penal que extinguiu completamente o processo criminal. A juíza O'Connor acabou aprovando a extinção do processo, abrindo caminho para a audiência de apelação de quinta-feira.
Cassell argumenta que a NPA oferece supervisão inadequada, ignora conclusões judiciais anteriores de que a conduta criminosa da Boeing causou as mortes e, na prática, imuniza a empresa de futuras responsabilizações criminais.
Famílias pedem julgamento por júri
Vários membros da família devem comparecer à audiência do Quinto Circuito em Nova Orleans, o que ressalta o caráter pessoal do recurso.
“O único resultado justo e equitativo neste caso é um julgamento por júri, onde a culpa da Boeing por causar a morte de 346 pessoas possa ser decidida de forma transparente”, disse Cassell em um comunicado. “As famílias das vítimas merecem ver a justiça ser feita neste importante caso criminal.”
A decisão do Quinto Circuito pode ter implicações de longo alcance — não apenas para o caso da Boeing, mas também para a forma como os procuradores federais negociam acordos de crimes corporativos quando os direitos das vítimas estão em jogo.



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