O crescimento do turismo global desacelera à medida que o conflito no Oriente Médio remodela os padrões de viagem.
MADRID — O turismo internacional continuou a expandir-se durante o primeiro trimestre de 2026, demonstrando resiliência face à crescente incerteza geopolítica. Contudo, novos dados sugerem que o conflito no Médio Oriente está a começar a alterar os padrões de viagem, a aumentar os custos de transporte e a afetar as expectativas para a crucial época turística de verão.
De acordo com figuras divulgado pelo Turismo da ONU Hoje, aproximadamente 307 milhões de pessoas viajaram internacionalmente entre janeiro e março, representando um aumento de cerca de 2% em comparação com o mesmo período do ano passado. Os ganhos, no entanto, mascaram uma desaceleração notável em março, à medida que os efeitos do conflito se espalharam muito além da própria região.
As companhias aéreas foram obrigadas a alterar rotas de voos, os custos do combustível dispararam e alguns mercados relataram escassez de querosene de aviação, contribuindo para o aumento das passagens aéreas e a redução da capacidade. Analistas do setor afirmam que esses acontecimentos estão influenciando cada vez mais onde e como as pessoas escolhem viajar.

“O conflito em curso está a perturbar os padrões de viagem muito além da própria região”, afirmou a Secretária-Geral do Turismo da ONU, Shaikha Al Nuwais, em declarações que acompanham o relatório. “Ao mesmo tempo, o turismo continua a demonstrar uma resiliência notável.”
A agência agora prevê que o crescimento do turismo global em 2026 ficará abaixo das projeções anteriores. Antes da intensificação do conflito, a previsão era de um aumento de 3% a 4% nas chegadas internacionais neste ano. As estimativas atuais sugerem que o crescimento poderá ser reduzido em um ou dois pontos percentuais, dependendo da duração e do alcance geográfico da crise.
A Europa beneficia da mudança na procura
A Europa, a maior região emissora de turistas do mundo, registrou alguns dos melhores resultados do trimestre. Mais de 130 milhões de visitantes internacionais viajaram para destinos europeus, um aumento de 4% em relação ao mesmo período de 2025.
Observadores do setor dizem que alguns destinos europeus podem estar se beneficiando de viajantes que buscam alternativas a áreas consideradas menos estáveis. Os destinos do sul do Mediterrâneo e do norte da Europa registraram crescimento de 4%, enquanto a Europa Central e Oriental continuaram a recuperação iniciada após a pandemia.
A África também registrou um aumento de 4% nas chegadas. Os destinos do Norte da África estiveram entre os de melhor desempenho, impulsionados pela forte demanda durante o mês de março, apesar dos desafios regionais mais amplos.
Resultados mistos na Ásia e nas Américas
O crescimento do turismo na Ásia e no Pacífico atingiu 3%, embora o desempenho tenha variado bastante entre os destinos. A Oceania registrou um aumento de 9%, enquanto o Nordeste Asiático cresceu 5%. O Sul da Ásia, no entanto, sofreu um declínio acentuado, já que as interrupções que afetaram os principais centros de aviação do Oriente Médio impactaram a conectividade.
As Américas registraram um aumento mais modesto de 2%. A América Central se destacou com um crescimento de 18%, enquanto a América do Sul apresentou um leve declínio.
O Oriente Médio foi a única região a registrar uma contração substancial, com uma queda de 14% nas chegadas durante o trimestre. O declínio ocorre após vários anos de crescimento excepcional que posicionaram a região entre os mercados turísticos de crescimento mais rápido do mundo.
O aumento dos custos torna-se uma grande preocupação
Além das preocupações com a segurança, os executivos do setor turístico identificam cada vez mais o aumento dos custos como um desafio significativo. Os preços mais altos do petróleo se traduziram em maiores despesas com transporte, enquanto a inflação continua a afetar os preços de hospedagem e serviços em muitos destinos.
Uma pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas para o Turismo (ONU Turismo) com profissionais do turismo revelou que quase dois terços acreditam que o conflito está afetando negativamente a demanda em seus mercados. Muitos entrevistados citaram a incerteza entre os viajantes, a redução das opções de voos e as preocupações com futuras interrupções.
As pressões econômicas também estão mudando o comportamento do consumidor. Analistas relatam que os viajantes estão se tornando mais sensíveis aos preços e mais propensos a escolher destinos mais próximos de casa, reduzindo as distâncias de viagem em um esforço para controlar os custos.
As perspectivas para o verão permanecem incertas.
Apesar dos crescentes desafios, o sentimento do setor permanece cautelosamente otimista em relação à temporada de verão no Hemisfério Norte, tradicionalmente o período mais movimentado do ano.
O Índice de Confiança do Turismo da ONU permanece ligeiramente acima dos níveis neutros, indicando que muitos profissionais do setor ainda esperam crescimento, embora em um ritmo mais lento do que o previsto anteriormente.
Diversos eventos importantes podem impulsionar a demanda por viagens. Na América do Norte, espera-se que a Copa do Mundo da FIFA de 2026 gere um fluxo significativo de visitantes para os Estados Unidos, Canadá e México durante os meses de junho e julho.
Resta incerto se esses ganhos serão suficientes para compensar os desafios geopolíticos e econômicos mais amplos. Por ora, o setor de turismo global parece estar entrando em um período definido não pela expansão acelerada, mas pela adaptação — ajustando-se a um mundo em que conflitos, mercados de energia e a confiança dos viajantes estão cada vez mais interligados.



Deixe um comentário